

Ganhei do Tcheco a biografia do seu pai, Evelásio Vieira, o famoso Lazinho, político que rompeu com a hegemonia dos sobrenomes alemães no poder de Blumenau em plena ditadura militar. Além disso, Lazinho foi jogador do Palmeiras (e do Tupy, de Gaspar, também), jornalista/radialista/empresário da comunicação e amigo de meu pai Teixeirinha, com quem trocou passes pelo alviverde.
Foi uma leitura rápida de Um Homem de Valores, autoria de Christina Elisa Baumgarten. É um livro importante para algumas reflexões. Lazinho se elegeu prefeito contra toda estrutura de poder da época. Foi eleito senador em seguida, 1974, derrotando Ivo Silveira, ex-governador arenista. Líder nato, cresceu politicamente lançando novas lideranças que fizeram carreira no manda brasa. De tão bonzinho e fiel aos companheiros acabou sendo derrotado pelos próprios aliados que ele lançou na política quando tentou retornar como prefeito de Blumenau.
Mesmo popular, não conseguiu mais exercer um cargo eletivo. Participou ativamente da eleição de Tancredo Neves e acabou na Sudesul à convite de Jorge Bornhausen já no governo de José Sarney. Depois disso foi Secretário de Turismo, Comércio e Turismo do governo Pedro Ivo Campos como consolo a sua derrota como candidato ao Senado (a princípio nem estaria no secretariado). E, por ironia, e ciclo natural da história, Blumenau foi dominada pelo MDB por um bom tempo, governada pelo PT e, nos últimos anos, retornando as origens da extrema direita que Lazinho derrotou.
Mesmo com os percalços e puxadas de tapete na política, Lazinho foi, como sugere o título da biografia, um homem de valores, querido por todos com quem convivia. Eu gostava muito dele. Figura simpática, sempre disposto a uma conversa. Certa feita fomos ele, o pai e eu a Curitiba nos encontrar com o Fedato, zagueiro do Coritiba, assíduo frequentador das convocações para a seleção paranaense de futebol. Estava produzindo a biografia do meu pai. Sempre de bom humor, ele na frente do carro com o pai, eu atrás falando com ele e nada dele responder. Impaciente dei um cutucão nele que respondeu: “fala no outro ouvido que desse lado sou surdo!!”, caindo na risada.
No livro do pai há uma passagem impagável narrada por Lazinho de um jogo no campo do Tupi, de Gaspar, que arrancaram o couro cabeludo do juiz, que também era barbeiro. Lazinho sentou na cadeira do barbeiro, isso em Itajaí, narrou o feito do jogo em Gaspar e o barbeiro, com a navalha na mão, observou para seu espanto: “O juiz era eu”.
Aproveitar que li a biografia do Lazinho para registrar uma historinha dele, inédita, contada pelo saudoso Jaison Barreto, guardada nos meus arquivos:
“Eu tinha um motorista chamado Pingo. Baixinho, gordinho… ele ficava em Blumenau. Era meu amigo, eu tinha me separado, de confiança. Na época tinha aquele jogo de caneco e ele jogava pra caralho. Eu pensava com que dinheiro ele joga esse caneco, era uma turma que tinha dinheiro que jogava ali no Frohsin. E ele, metido, pow pow pow, ganhava tudo e eu pensava… ooo esse cara tá roubando.
Ele sempre imitava o Lazinho, sabia todos os nossos discursos. Ficava no fundo do salão, encostado na parede e sempre com alguém ao lado dele. Quando a gente, especialmente o Lazinho, começava a falar, ele começava junto. E o cara ao lado não entendia nada.
Pingo foi meu motorista na campanha para o Senado, em 1974. A gente chegava a fazer 10 comícios por dia. Na época do Lazinho, candidato ao senado, fomos pro oeste. Aquilo era uma tifa, não tinha asfalto, um sofrimento, o Pingo dirigindo. O Lazinho, a comitiva e eu que era deputado federal. Chegamos numa tifa lá com aquela tradicional reunião no salão paroquial.
Aí foi uma parada indigesta. O filho do prefeito estudava em Florianópolis, ambiente pesado contra nós. No oeste era tudo muito religioso, dá para imaginar pelo local da reunião. Salão cheio, abarrotado. Claro, é uma atração ouvir o Lazinho. Radialista, pegou o microfone e foi pra ponta de mesa. A filha do prefeito, com um gravador grande nas mãos, colocou perto da boca dele e ligou como se dissesse vai, fala. Eu pensava isso vai dar cagada, 80% de Arena e nós aqui. Aí o Lazinho começou falar com aquela entonação de radialista, ‘que nós temos que fazer isso e aquilo’, tá tá tá … e a moça desafiava, debochava no meio do discurso para provocar, tipo tomara que ele escorregue para nós dar uma camaçada de pau.
Aí o Lazinho começou a fazer críticas ao governo, falando bem dos agricultores que é quem planta, quem sustenta a sociedade e o governo trata mal. A moça impaciente com o que ele falava, discordando. Certa hora ele diz que o país só tem solução pela agricultura, vamos primeiro alimentar nosso povo e essa falta de assistência no campo. E o Lazinho foi crescendo. Por isso me comprometo em garantir a sobrevivência do homem primeiro no campo, depois produzir, precisamos de governo que apoie a produção, e a mocinha braba. O Lazinho continuava… ‘não adianta negar a verdade, aqui por exemplo, tem técnico agrícola aqui neste recinto?’ O salão silenciou e ela simplesmente disse ‘tem sim senhor’, e o Lazinho insistiu… ‘Quantos?’ Ela titubeou e respondeu: ‘um’. Lazinho então encerrou a conversa com um Sóóó!!!!´ Aquilo ecoou pelo salão todo provocando muitos risos”.