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O think tank das praias agrestes

Published by Bola Teixeira on 30 de março de 2026
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  • interpraias
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Agência Interpraias pode ser a solução, ou não.

 

Fui convidado para um almoço em Laranjeiras, praia que frequentava quando sequer existia a Interpraias, e tampouco o protótipo dela, e que não retornava há muitos anos. Confesso que achei tudo uma ocupação de solo lamentável e lastimável. A pauta dos anfitriões foi demonstrar a intenção de atrair moradores através de uma gestão sustentável das praias agrestes de BC, uma delas, o Estaleiro, que resido há pelo menos 26 anos. Na mesma semana, o corretor de imóveis Maurício Girolamo gravou uma entrevista ao Diarinho falando em nome de uma entidade chamada Agência Interpraias. Pensei, que catzo é isso?

Enviei o link da matéria anunciando a entrevista para a jornalista Franciele Marcon, a Fran, editora do Diarinho e perguntei o que seria essa agência e ela também não sabia. Foi tudo quase que simultâneo, o almoço, a entrevista e o anúncio da agência num evento realizado na ex-casa do Moacir Schmidt, que teria sido adquirida recentemente pela modelo Caroline Trentini e mais alguns comparsas seus com a presença, entre outros, da prefeita Juliana Pavan. De bônus neste combo, ainda a notícia de que as praias agrestes serão monitoradas por 100 câmeras big brothers.

Assistindo a entrevista de Girolamo comecei a entender melhor as coisas. A Agência Interpraias é, na prática, um think tank que pretende liderar o crescimento sustentável daquela área. A gente não pode ser ingênuo – e nem romântico – para achar que não existe interesse econômico nessa organização, mas de qualquer forma é um avanço perante a inoperância pública.

Segundo Girolamo, o cenário projetado tem um limite populacional de 30 mil habitantes, espalhados pelas praias da Costa Brava. E as edificações seguindo um padrão ecológico. O anúncio do monitoramento já é uma ação da Agência. Ou seja, a segurança é fator primordial para todas as ações a serem realizadas naquela área da cidade.

Um ponto que Girolamo bate com insistência nos seus argumentos é de que as pessoas estão procurando refúgios após a vida em pausa representado pelo período da pandemia. Segundo ele, as pessoas procuram natureza. Então, penso, essa fuga da cidade, não é necessariamente uma busca pela natureza, mas sim, de sossego. Tenho dois exemplos a dar de Taquaras sem muito detalhe: dois migrantes compraram terrenos em Taquaras e “torraram” a vegetação dos lotes para construir seus lares de refúgio. É um universo minúsculo, mas é um fato. Se a municipalidade permite que toda a vegetação vá abaixo, ocupar sei lá quantos por cento do lote pode aliviar uma distância ok com o vizinho, mas o apelo da natureza é algo irrelevante, pois sequer deixam uma árvore para contar a história da natureza preservada. Imagina essa falta de consciência em série.

Acho interessante o surgimento de um think tank (em tradução literal seria um laboratório de ideias), porque, refletindo a partir da praia que vivo, Estaleiro, vejo uma série de pendências que perduram governo pós governo e poderiam ser assumidos pela entidade que surge. Começando por buscar um mecanismo que permita a agência fiscalizar, acompanhar, sei lá, o que está sendo aprovado para as praias agrestes. Os governos, qualquer um deles, não é confiável. Mas voltando ao Estaleiro, o que vejo:

. Na reta da Interpraias existem alguns terrenos sem recuo. São dois pontos: entre a Casa do Nivaldo Pinheiro e alguns metros do início da rua da Ponta do Lobo e, mais ao norte, dois tapumes sem recuo, um da ASRamos e o outro, se seu vizinho.

. O posto de saúde é um puxadinho da escola, o acesso é por um corredor atrás da trave do campinho.

. Ao lado do centro de convivência, em frente a igreja, existe uma área pública abandonada. Com vontade política pegaria toda aquela área (escola que tem um campo de futebol que mais parece de jogo de botão + campo de futebol + centro de convivência + a área pública abandonada) e mais um lote em direção a praia anexo a escola e faria algo decente.

. A área onde está a central de segurança (?!?!), era para ser uma central, nunca foi resolvido. A área é privada, mas de interesse público há anos. Ao lado do prédio há uma área que poderia ser transformada num espaço de convivência pública. Os governos nunca resolveram a situação com o proprietário, sempre empurrando de barriga.

. Por ser uma praia praticamente toda loteada existem uma série de áreas públicas espalhadas e, abandonadas. Nem os prefeitos sabem da existência.

. Acesso do Morro do Boi pavimentado com raspa de asfalto, bom reconhecer, conquista de um morador, o falecido Ricardão, isso há muitos anos. De lá para cá, nada. Dizem que será reurbanizada. Dizem. Por enquanto a prefeitura aprovou uma edificação na sua pirambeira.

São seis apontamentos que poderiam ser dezenas se somadas todas as praias. Por conta de negligência pública por motivos alheios a minha análise, privatizou-se a Praia de Taquarinhas e “prostituiram” o movimento naturista da Praia do Pinho.

Quanto ao almoço, bem o grupo de pessoas queria trocar ideias sobre fórmulas que possam atrair moradores para a região, já que a infraestrutura de comércio é praticamente zero. Por exemplo, desconheço uma farmácia desde Laranjeiras até Estaleirinho, onde termina a Costa Brava. Eu, na minha insignificância, disse: só não permitam o adensamento da ocupação do solo como Laranjeiras que, sem qualquer planejamento e baseado no improviso, parece um muquifo.

Foto: coruja buraqueira em processo de expulsão de lotes praianos.

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Bola Teixeira
Bola Teixeira
Jornalista, amante de blues e do bom e velho rock and roll, sediado em Balneário Camboriú - SC, mas com os olhos e ouvidos abertos para os acontecimentos do mundo.

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