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O torneio do Wilson

Published by Bola Teixeira on 17 de junho de 2026
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O tempo dos campinhos da praia e de BC, por Carlos Alberto Tanaquinho Schlup.

 

No final dos anos 60, adentrando a rua da madeireira do Lindolfo Sell, tinha um campinho de futebol. Naqueles tempos, em qualquer lugar que juntasse uns três ou quatro lotes, sem nenhuma casa e se os pés de silva não tivessem ainda se avivado, a ponto de se tornar uma manta verde espinhenta, era o lugar sonhado para a grande disputa. Podia ser só pelo prazer de jogar bola ou devolver a derrota sofrida no campo do adversário. A roseta ia saindo devagarzinho grudada na sola do pé.

Tinha vários desses campinhos por aqui, um na esquina da Rua 511 com a Avenida Brasil, outro no loteamento da família Silva entre as Ruas 501 e 601, bem perto da casa do Landinho, o campo do Macaco era nas proximidades da subestação da Celesc na Rua 2950, no Canto da Praia era perto da casa do Olindino Miguel. Alguns desses com melhor classificação, regulado pela mistura de malhas de capim e areia pura. A macega comia solta na maioria deles. Sem contar ali na praia em frente do Edifício Ouro Verde, onde a LAFA iniciou os campeonatos de futebol de areia. Na Rua 51 foi construída a primeira quadra de futebol de salão em 1964, com material doado pelos irmãos Ademar e Álvaro Silva, com o piso de cimento para dar uma boa lixada nas tramelas do joelho, esmerilhar o pé, o bico da Conga e do Kichute. No campo da Barra e o do Barranco, só com onze para cada lado pois os campos eram maiores.

Domingo quase sempre tinha um torneio e a noite da véspera, parecia um tanto infinita. Revira de um lado, se acomoda um pouco do outro e o colchão de palha parece uma canção de ninar meio desajeitada. O pensamento não desanuvia. Quantos times estarão lá? Será que o chorão vai aparecer de novo? O Babalú encheu a nossa bola? E por aí vai.

Logo cedo, o pão caseiro comprado lá no Hotel Balneário e chimiado com mussi de banana, era engolido às pressas. Uma delícia saudosa. Mesmo dormido, o pão doce com farofa que vinha na carrocinha e tungado no café, também.  Agoniado espero a chamada, até que o tilinto de uma sineta me atiça. “Mãe… tô indo.“

No terreno ao lado do campo, todos se acomodavam. Bastava uma sacola para o dono do time levar todo o material. Afinal, era quase nada, pois cada um levava seu uniforme para a mãe lavar. Aquela penca de bicicleta enfileirada quase num zigue-zague proposital, fazia parte da linha imaginária que marcava o campo e diminuía o berreiro se a bola tinha saído ou não. Aquela do Banana tinha o pneu tipo balão, facilitava andar naquelas ruas fofas, desprovidas de um mísero cascalho. Um desejo nem sempre possível.

O Wilson Sell promoveu um torneio e tinha arranjado duas taças, a maior para o campeão e a menor para o vice, o que parece óbvio. Nosso time, o Palmeirinhas estreava um novo jogo de camisa e calção, material que era guardado embaixo da escada que dava acesso ao apartamento do Higino Pio, nos fundos do hotel. Junto com a bola, a bomba e o luxo de uma velha e folgada joelheira, que por certo fora descartada pelo goleiro Bibi dos Tubarões. Fazia parte do acervo do time, mas valia apenas como decoração no acanhado quartinho, pois jamais serviria nos minguados cambitos do nosso goleiro. O time se apronta e joga em seguida. A competição segue correndo manhã afora, sai quem perde e fica quem ganha. Tinha um time de Itapema que voltou prá casa depois do primeiro jogo. Dava dó de ver aquele nosso uniforme novinho, que mais parecia uma mistura de verde, branco, marrom e acinzentado, pois o suor grudava areia e a poeira, feito aquela meleca de água com trigo que fazíamos para colar figurinha. Nossa rapaziada estava disposta e o time foi indo bem, passa por um, passa por outro e chega à final.

Torneio bom não acabava antes do meio dia e sem arrego do sol a pino, o time se abriga na sombra de uma única goiabeira. A bochecha rosada esmaece e a fome se alivia com meia dúzia de bolachas de mel. Sem o acompanhamento líquido devido, o nutriente embucha mas desliza goela abaixo.  Depois de um breve descanso, começa o jogo decisivo. Meio morrinhento no início pelo cansaço, mas um chute longo da nossa zaga fez o goleiro deles desviar a bola para a linha de fundo. Nessas peladas todos atacam, todos defendem, todos se empurram e todos se xingam. Até um cutelo estufa o peito. Então fui para a frente também. Na confusão armada na boca do gol após a cobrança de escanteio, meti um bico com vontade e a bola entrou. O beque que foi junto reclamava de falta, mas retruquei que ele parecia uma maria mole, daquelas cor de rosa. “Vai contar prá tua mãe, molengão.“ Ele pegou na corda e o bolinho se formou. Ora, foi só uma dividida e nada mais. Que alívio danado quando termina o primeiro tempo com esse placar magrinho, pois o time deles era muito bom. O Gatorade no intervalo foi uma simples gasosa meio descorada e quente. No segundo tempo, o time engrossa o caldo e o placar vai aumentando, dois a zero, três a zero.

Nesse dia o nosso time tinha um jogador enxertado. Até o terceiro gol ele andava amuado, meio que arrastando as canelas numa lerdeza impiedosa, ao contrário da sua característica. Faltando pouco para o jogo acabar, a bola veio alta cruzada nas suas costas, atrasada. Sem tempo de voltar, ele deu meia carambota para a frente e acertou a bola lá no alto. Ao invés da sola do pé, como fez o Higuita, ele usou o calcanhar. Um golaço, quatro a zero e o caneco garantido. Coisa do arisco nego Arnaldo. Ele fez essa jogada que hoje é conhecida como escorpião, no mínimo uns trinta anos antes do goleiro colombiano. Quando o nosso Palmeirinhas jogava contra o time dele, confesso que o zagueiro meio bronco aqui, só conseguia parar ele no pau, no sarrafo. Era pitoco e entrocadinho, liso e corria feito um doido. Um moleque que bem representava nossos queridos amigos do Canto, no trato com a bola. A vida o levou lá pelos lados de Santos.

O time do outro lado era do Wilson Sell e na premiação, levamos a taça menor que era para o segundo colocado, pois ele não esperava que seu time perdesse a decisão. Como diz o ditado desde sempre, o jogo é jogado e o lambari é pescado. Nesse dia, feliz da vida, levei para casa que ficava num beco que hoje é a Rua 1011, o pequeno troféu. Junto e quase não podendo forçar o pedal, foi o dedão do pé direito destroncado, cabeçudo e roxo. O dedo sarou nos dias que passaram e a tacinha guardei por muitos anos, até entregá-la em 2011 para o Júlio César Pio, que era o dono do time. Aquele campinho já se perdeu em meio do tempo e das construções, mas a lembrança desse torneio e desse jogo, jamais. 

Carlos Alberto Schlup

 

 

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Bola Teixeira
Bola Teixeira
Jornalista, amante de blues e do bom e velho rock and roll, sediado em Balneário Camboriú - SC, mas com os olhos e ouvidos abertos para os acontecimentos do mundo.

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