

O ano: 1986. O local: Ginásio Gabriel João Collares, em Itajaí, onde estava programado o show da Legião Urbana, no auge da banda que lançava naquele ano o álbum Dois, com um rosário de hits como Eduardo e Mônica, Tempo Perdido, Quase sem Querer, Índios, Música Urbana 2, entre outros. Cheguei cedo para entrevistar, de preferência, Renato Russo.
Me postei próximo de uma porta que levava até o backstage. Não me deixaram entrar. Fiquei ali e o tempo passando. O público já estava meio agoniado quando, finalmente, fui chamado para entrar. Quem fez as honras da casa foi Isabela Garcia, atriz da Globo, que namorava Dado Villa-Lobos (corrigindo, namorava Marcelo Bonfá). O vocalista Renato Russo me aguardava, enquanto seu entorno dizia vai rápido. Confesso que tremi nas bases, mas fui em frente.
Bastou uma pergunta para Renato Russo não parar de falar começando pela origem do grupo:
“Por volta de 1977, 78 eu e meus amigos estávamos com 16, 17, 18 anos, aquela fase de pensar no vestibular, pensar em servir o exército. Você está ficando mais velho, o que você vai fazer na vida. Na época estava começando o processo de redemocratização. Então o Figueiredo começou a falar de abertura. E, claro, a gente não podia reclamar, pois se reclamasse estaria fazendo de barriga cheia, porque a gente não era proletário, não era pobre.
Mas o que incomodava na verdade era a indiferença das pessoas e o sentido de que ainda havia muita injustiça e as pessoas realmente estavam fazendo nada, já que a farsa, de certa forma, continuava. Então, era época de abertura e até 82 você tinha tropas de choque, estas que parecem de filme espacial, indo para Brasília bater nos estudantes na UNB. Até recentemente quando a gente já tinha o Legião Urbana, em 84, teve o estado de emergência em Brasília. A gente ficava até com medo de sair de casa”.
Neste instante Renato é chamado para subir no palco. Ele não deu ouvidos continuando seu discurso.
SOBRE O MARGINALISMO DO ROCK
“Quem ouvia rock era considerado um marginal, eu lembro, tipo assim, eu ia para o colégio, todo mundo da banda também não era aquela coisa ‘ihh.. ele ouve Pink Floyd, era o tipo ‘pô o cara é o maior maconheiro’. Não é que nem hoje em dia , que é essa coisa, todo mundo tem rock na TV. ‘Meu filho, que bom, vai aparecer no Globo de Ouro”.
Nova interrupção. O baixista Renato Rocha e o baterista Marcelo Bonfá passam por nós. Isabela chama Renato, mas ele continua…
“… Brasília é uma cidade que tinha o Instituto Goethe, então eles passavam Wenders, Fassbinder, passavam essas coisas todas e a gente ia assistir porque era de graça. A gente não sabia exatamente o que era, mas engolia tudo. Pichavam a gente dizendo que éramos colonizados. Íamos para a Embaixada na França (…) era muita informação. Por ser um centro administrativo e ter muitas embaixadas rola muita informação e gente que viajava”.
Desta vez a empresária passa e diz.. “vamos Renato”. A plateia, agitada.
SOBRE AS INFLUÊNCIAS
“A gente sempre foi ligado em rock, mas não precisava fazer que nem Rick Wakeman ou que nem Keith Emerson, show de luzes e Rei Arthur quebrando gelo. Eles cantavam ‘porque os portais do delírio cósmico…’ e de repente o rock não era bem isso para a gente que gostava de bandas novas Clash, Stranglers (…) por que vou cantar os portais do delírio cósmico? Vou falar que estou na sentado aqui na aula e queria estar no clube jogando futebol. É claro, na situação delas (as bandas dos anos 70) pegaram tipo assim, este negócio dos hippies é tudo uma bobagem, porque continua o Muro de Berlim, continuam as guerras, continua tudo isso. E, para nós não precisava saber tocar né., então ligávamos tudo no amplificador e apareceu o Aborto Elétrico”.
O ABORTO ELÉTRICO, a primeira banda
“Imagina, Aborto Elétrico. Mas o Aborto Elétrico teve esse nome por causa de uma vez que eles estavam experimentando o tal do novo cassetete elétrico. Quem vai ser a cobaia? Os alunos da UNB. Então, em 68, acertaram uma menina que estava grávida e ela perdeu o filho. A gente tinha músicas como Verde e Amarelo e Que país é esse?, músicas que falavam tipo assim: “vou comprar plutônio importado com dinheiro na mão, desviar o embaixador e assassinar o avião. Você de esquerda, você de direita, são todos babacas e todos iguais, vivendo intrigas de tempos atrás. Acabem com a merda, nos deixem em paz”. Bobagem de adolescente mas que na época era um choque, éramos punk. Punk de boutique, nem de boutique, porque a gente tinha que fazer as nossas próprias roupas. Era uma turma grande que foi crescendo. Então, era uma coisa super livre, uma coisa muito bonita, porque encima da amizade, que até hoje é”.
SOBRE A LEGIÃO URBANA
“Hoje e dia a Legiâo Urbana se vê numa posição. A gente aparece na Globo e tudo, mas, no fundo, somos os mesmos caras. De repente a gente não está tendo tempo, não dá para explicar essa questão do tempo. O que sei é que o tempo aqui no Brasil é muito relativo, rápido e muito cíclico”.